COPA DO MUNDO: Retorno sobre investimento hoteleiro é incerto

Aristides_GiorgiAri Giorgi */// Afinal de contas o que a Copa do Mundo, depois do apito final, vai trazer de negócios para o turismo e para a hotelaria no Brasil? A exemplo da África do Sul, há controvérsias...

Em que pese as muitas diferenças econômicas entre os dois países, a África do Sul é a referência para antevermos os efeitos da Copa aqui no Brasil. Isso porque também há muitas semelhanças. Por exemplo, ambos os países estão muito distantes dos principais centros emissores do turismo internacional, que são a Europa, os Estados Unidos, a Oceania e a Ásia (em especial Japão), o que torna a viagem longa e custosa.
Isso sempre foi apontado como uma das causas da insignificante entrada de turistas no Brasil, que há mais de dez anos não sai de 5 milhões anuais, incluindo o turismo de negócios - e principalmente e o de lazer. A entrada de turistas a negocios e a lazer na África do Sul sempre ficou, antes da Copa, em torno de 6 a 7 milhões/ano, mais do que o Brasil, embora mais de 80% sejam de viajantes do próprio continente africano. Outra semelhança é a pobreza das favelas, a violência urbana, além da precária infraestrutura em estradas, transporte coletivo e aeroportos.

O que trouxe de benefício a Copa do Mundo para a África do Sul?

Com certeza fez melhorar a sua infraestrutura urbana em alguns aspectos, em prol de seus habitantes, especialmente em relação aos aeroportos e à malha viária em algumas cidades-sede. A qualidade do turismo e da hotelaria teve um upgrade. No entanto, após a Copa muitos dos mesmos problemas estão de volta e outros surgiram. E o impacto sobre o turismo parece ter sido muito aquém do esperado, de acordo com empresários hoteleiros e do setor.
Após o período de excitação da Copa, a imprensa sul-africana voltou à sua programação normal de crime, abuso policial, corrupção, protestos, problemas de energia, desastres automobilísticos, ameaças de greves e disputas políticas (fonte: Economist - South Africa after the World Cup). A segurança foi boa enquanto durou a Copa.

Os dez magníficos estádios construídos estão absolutamente ociosos, representando hoje elefantes brancos. Situação semelhante poderemos ver por aqui também depois do jogo final da Copa. Mesmo sendo a nação do futebol, nossos campeonatos estaduais e o Brasileiro só lotam um estádio quando de um clássico. Durante o Brasileirão, a ocupação média dos estádios existentes é de 40%.
E pelo "andar da carruagem" da atual gestão do País, parece que nem teremos por aqui muita melhoria na infraestrutura por conta do mundial. Os aeroportos são uma evidência.

Um ano depois da Copa, a hotelaria na África do Sul ficou em dificuldades, afirma um importante órgão oficial sul-africano do turismo. Os investimentos em ampliações e novos empreendimentos para atender o evento esportivo estão hoje ociosos diante do crescimento da demanda que não ocorreu no "day after". No período de 2007 a 2010, a oferta hoteleira 5 estrelas cresceu 30%, e a de 4 estrelas, 20%. Cerca de meio milhão de turistas visitaram o país pela primeira vez motivados pela Copa. No entanto, afirmam os hoteleiros, o novo e contínuo fluxo de turismo internacional esperado com a visibilidade do megaevento esportivo não aconteceu como sonhado. As taxas de ocupação estão bem abaixo das expectativas desde então, mesmo na Cidade do Cabo, principal destino turístico no país. "Pensávamos que após o mundial teríamos um aumento no número de turistas. Mas as dificuldades econômicas continuam, não temos tantos turistas como esperávamos", afirmou, em 2011, Mmatsatsi Marobe, diretora-geral da TBCSA (Conselho da Indústria Turística da África do Sul). (fontes: Esportes.terra.com.br - 01/08/2011; worldpropertychannel.com - South Africa Hotels impacted by Fifa World Cup overbuilding last year - 22/09/2011; sturbonews.com - Hotel Rooms in South Africa stay empty - 23/10/2010).

No entanto, no quadro abaixo - Entrada de Turistas na África do Sul - observa-se que ainda que não muito significativo, o impacto que a Copa do Mundo teve sobre o turismo internacional no ano seguinte foi de certa forma positivo. Em 2010, quando ocorreu a Copa, o turismo total cresceu 15,1%. O turismo "overseas" cresceu 24.1% - são turistas provenientes das Américas do Norte, Central e Sul, da Europa, da Austrália, Japão e Oriente Médio. No ano seguinte à Copa, esse mesmo fluxo de turistas - que são aqueles que mais gastam em viagens -, teve queda de 3%. Teve crescimento o segmento de turistas provenientes de países do próprio continente africano (6.6%), que representa atualmente mais de 70% do total do turismo internacional para a África do Sul.
A menos que esses números não sejam lá muito confiáveis, podemos afirmar que o mundial de futebol de certa forma incrementou o patamar do turismo internacional em torno de 1 milhão de turistas: de 6,3 milhões em 2009 para 7,5 milhões depois da Copa, conforme mostra o total das entradas em 2011. O turismo "overseas" cresceu o patamar em torno de 400 mil turistas.

Entrada de turistas - África do Sul
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(fonte: southafrica.net)

Meio na contramão desses números, hoteleiros na África do Sul dizem que a Copa só fez aumentar a concorrência com o aumento da oferta hoteleira. Um dos grandes hotéis de Johannesburgo, o Grace Hotel, anunciou em agosto de 2011 que fecharia as portas. "O hotel vem sofrendo uma drástica redução no número de turistas, tanto estrangeiros como locais" afirmou o grupo Hyprop, proprietario do hotel.

Como pano de fundo há que se considerar também a crise econômica internacional que ainda perdura, afetando principalmente as viagens internacionais de lazer de visitantes dos países ricos, fazendo os americanos continuarem indo por bem menos ao Caribe, e os europeus para a Sicilia, Costa Amalfitana, Cote d'Azur, Grécia, Costa do Sol espanhola e outros destinos mais próximos.
Diante dessas controvérsias sobre o efeito a longo prazo da Copa sobre o turismo na África do Sul, o que devemos esperar que possa acontecer no Brasil? Mesmo antes do apito inicial, o jogo já parece estar embolado. Em meio a tantas estatísticas díspares existentes no Brasil sobre o turismo e sobre a oferta dos meios de hospedagem, o recente estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que na maioria das 12 cidades-sede da Copa há um déficit de hospedagem para acomodar os turistas estrangeiros torcedores, equipes de jornalistas, comentaristas, narradores de TV e radialistas de cada país.

Ninguém sabe prever qual será o fluxo de turistas torcedores em cada cidade-sede, o que vai depender da importância de cada seleção do país no cenário futebolístico internacional - além dos atrativos de cada cidade. Sim, porque os 500 mil visitantes viajarão pelo País para conhecer também outras regiões e cidades. Haverá também o contingente de torcedores brasileiros loucos por futebol que estará se deslocando dentro do País para assistir aos jogos entre as diversas seleções e os da seleção brasileira. Toda essa gente vai precisar se hospedar.

Pouco hotel para muito turista
O quadro abaixo mostra a oferta hoteleira atual nas 12 cidades-sede, segundo a pesquisa do IBGE. Colocamos uma coluna referente aos novos estádios em construção e estádios em reforma e suas respectivas capacidades de lotação, as quais imaginamos foram determinadas em função de uma previsão da demanda por ingressos de cada jogo. Quantos turistas cada cidades-sede irá receber ao longo de 40 dias? Para efeito de exercício de futurologia, vamos considerar que 1/3 da capacidade de cada estádio seja composta de espectadores estrangeiros visitantes.
Fica claro que em muitas cidades-sede não haverá lugar em hotel nem para esses turistas compradores de ingressos dos jogos, como Manaus, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Cuiabá, Brasília, Porto Alegre. Vale observar, entre os meios de hospedagem, a quantidade de hotéis e flats em cada cidade, o que torna o problema de acomodação mais dramático ainda, por serem esses os meios mais bem equipados e estruturados para receber os visitantes estrangeiros. Além disso, cidades com fortes apelos turísticos deverão receber um fluxo maior de turistas visitantes ao longo dos 40 dias da Copa, tais como Rio, Salvador, Natal, Recife e Manaus.
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Risco do investimento em expansão e novos hotéis

De certa forma, hoje os investimentos hoteleiros aqui vêm acompanhando o ritmo de crescimento da economia. Esse equilíbrio entre oferta e demanda tem proporcionado para muitos hotéis de muitas cidades obterem taxas de ocupação lucrativas com o aumento do RevPar (receita por apartamento disponível) que cresceu 17,9% em 2011 (fonte: www.str.com).
A Copa é um fator novo nesse processo, com risco de se criar uma oferta excessiva de hospedagem após o Mundial. Ou o evento coloca o País num novo patamar de turismo ou poderá ser uma festa que vai durar somente 40 dias, com uma terrível ressaca para a indústria hoteleira.

À luz dessa controvérsia de opiniões e interrogações sobre o impacto que a Copa teve na África do Sul, diante da forma amadora como o Governo trata o turismo no Brasil e da forma confusa como a gestão pública vem executando a infraestrutura básica do País, vamos torcer para que a Copa do Mundo aqui não seja um "tiro no próprio pé"?

* Profissional da indústria hoteleira. Administrador de empresas formado e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas São Paulo, com curso de especialização em administração hoteleira pela Cornell University - USA. Atualmente é diretor Comercial América Latina da Easy Revenue Management.
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FUENTE: www.hoteliernews.com.br
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DARÍO QUEIROLO

Darío Queirolo, periodista especializado en viajes y turismo, con vasta trayectoria en la industria turística.
Comenzó a trabajar como agente de viajes en 1977, en Uruguay y los Estados Unidos.
Entre los años 1978 y 1980 fue guía de turismo en New York City y Washington D.C..

Estableció su agencia de viajes, First Class World Tours, en 1980, en la 5ta. Avenida en Manhattan, New York.
Fundó la revista de turismo Infotur en 1983. 

En 1999 comienza su proyecto PASAPORTE, con el lanzamiento de la primera guía bilingüe de turismo Pasaporte Uruguay.
En el año 2005 fundó el periódico digital Pasaporte News.